sobre a posse

E de vez em quando eu sinto essa vontade de me doar:
de caminhar junto, de experimentar ver a vida pelos olhos de outro.

Mas, pela frente, encontro seres lançando-se atrapalhados em cima do amor que tenho,
querendo de mim, como de tudo, cada pequenina parte.

Só amor não satisfaz.
Querem cobrar e julgar
Querem dúvidas e decisões.
Jogam de volta responsabilidades.
Querem mais, querem muito, querem de novo.
Querem pra sempre.

Se não, é pouco.



(e, assim, talvez nós nunca tenhamos sabido realmente,
que é do Amor?)

sobre a vaidade

precisava ouvir que era bonita.
E, assim, ainda que não pudesse amá-lo,
já não podia viver sem ele.

sobre crescer

Enquanto as outras crianças só choravam quando ralavam os joelhos, cortavam o pé,
doía no corpo,

eu, de repente, comecei a chorar por nada.

Chorava baixinho, escondida, com vergonha das lágrimas.
Pedaços de mim querendo fugir nos soluços.
Um soluço duro, machucando por dentro o peito e a garganta.

Meu pai, certa vez, ao me ver chorar assim,
com a mão na minha cabeça me consolou dizendo:
- crescer dói.

E então eu entendi:
eu estava crescendo
e aprendendo a chorar de tristeza.

sobre a perda

porque perder o chão
é a melhor oportunidade de aprender a voar

sobre a solidão

Eu gosto de ser sozinha. De ser eu só: simples, sem ninguém pra completar.
Ser sozinho é ser livre: é poder ficar e poder partir, sem qualquer explicação. Nunca tem explicação.
Quando a gente é junto e tem que explicar, inventa.
Ser sozinho é poder ser verdade. É ser sem ninguém olhar. Ser sem ninguém medir. Ser sem ninguém julgar. É ser-sentir, quase sem palavras:

Só.
Assim curtinho.

Um sopro.
Leve.
Liso.
Livre.

(mas que liberdade triste)